Conselhos de um cardeal que viveu 13 anos confinado

Francisco Nguyen Van Thuan oferece dicas úteis para renovar as forças durante o isolamento:

15/06/2020

Os dias passam e o isolamento social foi ampliado em São Paulo. Os psicólogos concordam que é normal o isolamento gerar ansiedade e cansaço, algo que, com o tempo, pode se intensificar facilmente. Em tais circunstâncias, como podemos seguir em frente sem desanimar?

Cardeal Francisco Van Thuan era vietnamita, viveu treze anos na prisão (1975 a 1988) sob o regime comunista. O motivo até hoje não se sabe. Provavelmente porque tinha uma liderança religiosa muito grande e incomodava os comunistas. No início, foram necessárias muitas mudanças para ele aceitar que não podia mais sair nem fazer seu trabalho. Mas, pouco a pouco, o isolamento acabou se transformando em uma escola e sua vida mudou.

Ele escreveu a experiência do que ajudou a não desanimar durante seus treze anos de confinamento. Hoje suas palavras são conselhos valiosos para renovar nossas forças durante este novo estágio da pandemia do corona vírus.

Primeiro Conselho: Viver o Momento Presente

Em tempo de pandemia, não se poder sair de casa e o confinamento gera grandes expectativas. E nós ficamos pensando: quando é que podemos voltar novamente à vida normal? Quando podemos sair novamente e sentir a liberdade?

O cardeal Van Thuan, relatando sua história, diz que um dia ele decidiu parar de contar os dias que ainda restava para serem vividos em cativeiro e decidiu parar de esperar para se concentrar em viver cada minuto, cada dia como se fosse último minuto de sua vida.

Isso o ajudou a deixar de lado tudo o que era acessório e se concentrar no essencial. Começou a pensar que cada coisa, por pequeno que fosse, naquele momento era a coisa mais importante da vida. Estar presente em todas as palavras, em todos os gestos e nas conversas telefônicas. Cada decisão que ele tomava era a coisa mais importante de sua vida.

Talvez as coisas mais visíveis e grandes ao nosso redor podem ter parado: nosso trabalho, o convívio social, as visitas, as festas, as visitas à família, ir ao shopping. Isto pode deixar uma sensação de vazio, de estresse e de tristeza. Porém, muitas pequenas coisas agora entram em cena começam a se mover, coisas que talvez antes a gente nem sequer percebesse. Estar atentos a esses detalhes no nosso dia a dia de confinamento ajuda a equilibrar a nossa mente, além de ajudar a manter o foco.

É útil durante o confinamento se fixar no momento presente de cada dia, mesmo em silêncio, descobrindo e meditando sobre palavras ocultas internas. Essa atitude nos leva a fazer um exercício diário de paciência que só se desenvolve em tempos como este que estamos vivendo e assim podemos perceber que a vida é mais profunda que a rotina.

Segundo Conselho: Encontrar o Seu Objetivo

Na vida fazemos muitos planos e projetos. É só lembrar o início de cada ano. Tantas coisas que queremos começar a fazer e muitas outras que queremos continuar fazendo ou planejamos. Agora, porém, estamos confinadas, sem sair de casa. Todos os projetos, sonhos e planejamentos parecem impossíveis. Com facilidade nos surpreendemos em crise, desencorajados e frustrados.

Voltamos à história do cardeal Van Thuan: Nos treze anos que ele passou preso, ele também passou por momentos de crise e desânimo. Pensava nos trabalhos que poderia estar fazendo naquele momento, nas visitas pastorais, na formação de seminaristas, na construção de escolas, casas de estudantes e missões para evangelizar. Todos eram excelentes trabalhos que ele queria colocar em prática, mas não podia.

Um dia ele entendeu que ele poderia estar fazendo muitas coisas, sim, mas Deus queria ele ali numa cela e não em outro lugar. Aí ele lembrou que ele tinha escolhido Deus e ele estava preocupado com suas obras. Se era assim, ele tinha que abandonar todos os seus projetos e se colocar nas mãos de Deus, e com confiança, porque Deus faria essas obras melhor do que ele e as confiaria a outros muito mais capazes.

Talvez este momento de confinamento seja um momento para aumentar nossa confiança em Deus. Precisamos parar de se concentrar no “fazer” e se focar mais em “ser”. As atividades nos envolvem numa rotina que não nos deixam muito tempo para refletir. Esta é a oportunidade para estabelecer um objetivo para a vida. O que eu quero na minha vida? O que é importante para mim? Quando conseguimos ter claro o objetivo de nossa vida, com mais facilidade conseguimos lugar para alcançá-lo.

Esse processo de reflexão nos leva a melhorar nossa vida pessoal. Podemos também descobrir aspectos novos e muito ricos de nossa vida familiar, de nosso trabalho. Enfim é uma oportunidade para se encontrar. Um momento oportuno para buscar a Deus. Momento para buscar e descobrir o propósito de Deus para nos criar. É hora de aprender a deixar Deus agir para que ele encaminhe tudo da melhor forma.

Terceiro Conselho: Rezar/Orar uns Pelos Outros

Outra grande ajuda em tempos de pandemia é recorrer à oração. É a oportunidade de orar. Reze, mas também peça aos outros que rezem por você. Muitas pessoas imaginam que o cardeal Van Thuan tinha muito tempo para rezar na prisão, mas ele diz que não é uma coisa fácil, porque, ao estar isolado, você pode experimentar toda a sua fraqueza, fragilidade física e mental e o tempo passa lentamente.

É por isso que suas orações preferidas eram breves e simples, tiradas do Evangelho como: “Em tuas mãos eu confio meu espírito” (Lc 23, 46); “Tenha compaixão de mim, sou pecador” (Lc 18, 13); ou “Lembra-te de mim quando entrares no Teu Reino” (Lc 23, 42-43); “O Senhor é meu pastor, nada me faltará” (Sl 22/23); “Senhor, completai em mim a obra iniciada” (Sl 137). Palavras ou frases curtas e simples, mas muito valiosas.

Certa vez, Van Thuan contou que ficou muito emocionado com a simples oração de um comunista que era espião, mas depois se tornou seu amigo. Este havia prometido rezar por ele, mas o cardeal duvidava disso, sabendo que o homem não praticava nenhum credo.

Um dia, cerca de seis anos depois, estando isolado, Van Thuan ficou surpreso ao receber uma carta daquele homem, dizendo:

“Caro amigo, prometi rezar por você diante de Nossa Senhora de Lavang. Faço isso todo domingo quando não chove. Pego minha bicicleta quando ouço o sino tocar. A basílica está totalmente destruída pelo bombardeio, por isso vou ao monumento das aparições, que ainda não foi destruído. Rezo por você assim: ‘Senhora, não sou cristão, não conheço as orações, peço que dê ao Sr. Thuan o que ele deseja’.”

Uma oração como essa, mesmo sem compartilhar as mesmas crenças, é ouvida por Deus. Se incluirmos a oração em nossa vida diária de maneira prática uns pelos outros, seremos capazes de descobrir a verdade sobre nós mesmos, nosso eu interior e o ‘Tu’ que cura as angústias e preocupações do dia a dia

Quarto Conselho: Preencha os dias com Amor

As duas grandes motivações para a ação na vida são o amor ou o medo. Ou amamos o que nos anima ou tentamos evitar o que temos medo. Estando isolados, a incerteza aumenta e podemos pensar em adoecer com corona vírus ou não ver mais os amigos. O medo, assim, transforma-se pouco a pouco em uma prisão real.

Nos momentos mais dramáticos do isolamento, quando estava exausto e sem forças para rezar, Van Thuan encontrou uma maneira de recuperar o essencial de sua oração e escolheu o amor: amar os outros sem exigir nenhum retorno, preencher cada momento com amor, perdão e misericórdia até alcançar a unidade com os outros.

Ele não tinha nada, nem mesmo pertences, mas tinha amor em seu coração, e um dia disse: “Quero ser o menino do evangelho que ofereceu tudo o que tinha: os dois pães e dois peixes”. Quase nada, cinco pães e dois peixes, mas era “tudo” que ele tinha, para converter-se em um “instrumento de amor” para os outros.

Na manhã seguinte, ele começou a amar, sorrindo, trocando palavras amáveis com os guardas da prisão, para contar sobre suas viagens. No início, ele foi rejeitado, mas pouco a pouco ele fez amizade com eles, eles mostraram interesse em aprender línguas estrangeiras, e os guardas acabaram se tornando seus alunos.

É um erro não notar as pessoas ao nosso redor. “Gaste toda a sua energia e esteja sempre pronto para se entregar ao seu próximo. Isso lhe trará paz.”